Tinta da solidão



‎Sozinho, numa praia distante...
Aprisiono o som das ondas do mar numa tela
Que pinto com a tinta da solidão.

Os dias de alegria já se esvaíram,
Resta-me o azul do mar como companhia
E o som das ondas que tento aprisionar.

Perdi a minha identidade com o tempo
Porque quis ser aquilo que não sou nem vou ser…
Não me reconheço mais,
Já não me revejo no brilho das estrelas.

Estou só nesta ilha perdida,
À procura de mim em mim
Na ânsia de voltar a ser o que outrora fui.

E quando esse tempo chegar,
Abrirei um portal que me levará desta ilha
E então o som das ondas ficará preso em mim, para sempre.

Foto: Arraial d'Ajuda 2007 de Lívia

Não fomos nem seremos...



Vou ficar contigo esta noite
Proteger-te de todos os teus medos…

Mas no fundo aquilo que eu fui para ti
Não passou nem passará de um sonho,
O nosso passado ficou para trás,
As peças do puzzle perderam-se…
E nunca mais seremos… nem estaremos….

Agora vou limitar-me a que o coração bata por bater
Quando não existem mais motivos que o motivem,
Quando já não existe nada onde tudo havia…
Porque já não consigo ver através do escuro.

Mesmo assim fico contigo mais esta noite
E continuarei a dar-te a segurança que sempre dei…

Tu e eu fomos um sonho que não foi sonhado,
Fomos uma fotografia que não foi tirada,
Um texto que não foi escrito…

Vou continuar na busca do meu trilho
E quando sentir que sou ninguém
Vou gritar para o ar o meu nome
Pode ser que alguém me ouça…

Foto: |De costas voltadas| de Bruno Queirós
A sós com a solidão


Deixem-me agora, por favor…
Tenho um encontro marcado com a solidão
E já há muito que não a vejo,
Existem saudades para matar.

Agora deixem-me aqui no meu canto
Onde esperarei pela solidão,
Neste canto que já fora, em outros tempos,
Um local de encontros mais regulares.

É verdade…
Já não via a solidão há uns tempos
Mas parece que a hora do reencontro chegou
E não a quero fazer esperar,
Deixem-me agora…

Deixem-me com as recordações dos bons tempos,
Com as lembranças grandiosas do passado,
Deixem-me com o resto de mim
Que se esforça para se manter vivo…

A solidão está a chegar,
Já ouço os seus passos silenciosos ao longe,
Agora é entre mim e ela,
Deixem-nos a sós, por favor!

Foto: Solidão de Fabiana Pazzini
Lembranças de um tempo que não passou...

Não há muito tempo éramos amigos,
Passaram anos mas o tempo quase não passou…
O que devia ter sido até ao fim
Acabou por ter um fim prematuro.

Tenho na alma guardados todos os sentimentos,
Como se tudo estivesse bem...
Mas não está,
Tudo desapareceu, tudo se apagou…

Engraçado como ouço o tique-taque do relógio...
Todos estes segundos que eu perdi a enganar a saudade,
Todo o tempo que desperdicei com o pensamento,
Quando pensar acabou por destruir parte de mim.

Tinha tudo na palma da minha mão,
Simplesmente vivia.
Hoje restam as lembranças que não quero apagar
E as feridas que custam a sarar…

Ouve a minha alma,
É o meu último pedido.
Escuta a solidão, o sofrimento e a saudade,
Nada disso importa agora...
Pois estive demasiado ocupado a desperdiçar tempo,
Enquanto tu estavas sozinha e também a sofrer,
Mesmo assim imploro-te,
É o meu último pedido.

Atende às minhas preces,
É o meu último pedido…
Sê feliz.

Foto: O tempo parou de Márcia Brandão
Não há muito mais tempo


O dia que eu tanto temia chegou…
Chegou o dia em que não sei o que escrever!
O mundo desabou perante mim
E eu limitei-me a aceitar tal facto…

Não sei como viver…
Não sei como passar estes dias que ainda me restam!
Tanta coisa que deixei por fazer
Por pensar que tempo não iria faltar…

E agora o fim está próximo…
E são tantas as pessoas que quero ver,
Tantas as músicas que quero ouvir
E tantos os livros que quero reler…

E já não há tempo para tanto…
Falar já não consigo,
Pois a cada palavra que me sai pela boca
Mais lágrimas se escapam dos meus olhos.

Limitei-me a ficar sozinho…
Evitei que outras pessoas sofressem comigo
E que chorassem as minhas lágrimas…
Pois já nada mais lhes podia exigir!


Foto: Time is running out de  -ANA-
Alma perdida entre a razão e o coração


A razão aconselha-me a desistir
Mas o meu coração continua a acreditar!
Há palavras que são impossíveis de apagar
E imagens que a memória jamais deixará partir.

No meu rosto já não habita um sorriso,
Nos meus olhos está espelhada a desilusão.
Acabo por me resignar,
Aceito que a felicidade me escape por entre os dedos.

São muitos os golpes na alma,
Enumeras as cicatrizes no coração…
E a força para lutar já não é a mesma,
A confiança está como a esperança, abatida…

Talvez um dia a vida me corra de feição,
Talvez um dia acorde e tudo esteja bem…
Até lá o sonho se alimentará,
Até lá viverei, mesmo sem saber o que isso é.

Foto: ...Alma Perdida... de helder magalhaes
Cumprir o dever...


A noite cessou e a luz mais uma vez rompeu,
Uma rotina que já testemunhei diversas vezes!
Tenho por costume olhar as estrelas,
Vê-las nascer e morrer no céu!

Noites que atiro para o caixote do lixo,
Ora porque os olhos não querem cerrar
Ora porque a cabeça não pára de cismar!
E tenho dores já…

Dores de cabeça!
Tenho virado e revirado as lembranças da infância,
Tenho previsto o futuro tão minuciosamente
Que o medo de falhar é enorme!

Não sei se estou preparado para correr riscos,
Não sei se conseguirei viver com o meu falhanço!
Não suporto a ideia de desiludir quem quer que seja
Quanto mais desiludir-me a mim próprio…

Mas quero também poder olhar para trás
E poder dizer que venci,
Poder dizer que cumpri o meu dever,
Que vivi…

Foto: Olhar para trás de Gonçalo Telo
Há coisas que nunca mudam...

Há coisas que nunca mudam.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,”
Mudam a fé e a esperança,
As pessoas que trago na lembrança,
Mudam-se as crenças e as verdades…

Mas há coisas que nunca mudam.

Pode a lua minguar sem ninguém notar,
Ou crescer até ficar gigante.
Fica cheia lá no alto, cativante…
Ou renasce mais uma vez, sem parar…

Neste meu mundo nada tende a mudar,
Nem este meu medo de sofrer
Nem toda esta repressão de viver,
Vale que a dor esvanece-se no acto de chorar…

É mesmo verdade, nada muda.

Já de nada adianta sonhar,
Não adianta sequer querer pintar o futuro,
Está tudo escrito, predestinado!
Esforço inglório lutar contra o destino…

E este é o ponto final,
Este é o fim do caminho…
É aceitar o que o destino me dará
É baixar os braços e submeter-me à sina.

Há coisas que não mudam mesmo
Nem hoje, nem amanha…
Nunca!

Foto: Agora a P&B de Manuel Madeira