A cada vez...



A cada vez que o sol brilha no teu olhar,
A minha alma se compadece de amor!
E não posso já sonhar
Pois o meu corpo consome-se em calor…

A cada vez que adormeces, minha donzela,
E eu a teu lado me deito...
A vela se apaga com a brisa que se escapa pela janela
E a tua mão suave toca no meu peito.

A cada vez que eu sonho contigo
E tu foges para qualquer lado!
Vejo na tua ausência o mais sôfrego castigo
Que é privares-me do teu vulto imaculado!

A cada vez que os nossos lábios se tocam
E o sol se esconde por detrás da lua…
Os meus olhos não mais choram
Essa ausência tua.

Foto: Em cama de Luz de Sónia Cristina Carvalho


Com dedicatória especial a Cátia Martins, amiga de longa data, que embora não esteja presente no meu dia-a-dia continua a ocupar um lugar no meu coração. São muitas as recordações que deixam saudade... muitas as vezes em que pacientemente aturou as minhas brincadeiras. Cátia, "faz o favor de ser feliz!" Beijo
Não vivo, existo!

Tanto sonho que tarda em despontar,

E o tempo que foge por entre os dedos,

Tanto suspiro atirado para o ar,

Na ânsia de calar todos os medos.


A verdade é que não há mais tempo…

Não há mais tempo para viver!

O relógio parou sem avisar

E a verdade é que me sinto a desfalecer!


Estou quase sozinho…

Tenho-me a mim mesmo como companhia,

E nem isso me deixa sossegado

Porque a noite está escura e fria…


E este sofrimento que me destrói o corpo

Comprime a alma e me derrete o coração…

Este sofrimento que ninguém se atreve a vencer

Quando o mais simples é estender uma mão!


Uma palavra de amizade ou um simples gesto…

É que a ausência de tudo isto

Só consolida a ideia de que não presto!

E cada vez mais penso que não vivo, existo!


Foto: Give me your hand de Névio Dias

Uma réstia de Esperança!

Quando a alma já não esconde a saudade
E o corpo responde por necessidade…
Quando o olhar já não consegue mentir
E as palavras já não se fazem ouvir…

E esta imensa tristeza que me invade,
Esta melancólica dor que quero apagar!
Mas não consigo, nenhuma força resta em mim…
Estou só e, oficialmente, vencido!

Caí no esquecimento…
Eterno desassossego que não me deixa viver,
Espinhos cravados no coração
Que fazem o corpo sofrer e a alma sucumbir!

A realidade está-me marcada no corpo
Como quem foi chicoteado pelo tempo
E aprendeu, por necessidade, a sobreviver…
Só resta a ilusão, a única porta aberta!

Esta dor de cabeça que teima em não passar,
Não aguento esta dor que é tão forte!
Algo acontece em mim…
Algo de mau teve inicio e eu não consigo parar!

Estou sem respostas por enquanto…
A esperança é pouca, mas não é nula!
E quando a luz brilhar sobre a escuridão
O meu corpo se erguerá e a alma renascerá!

Foto: A luz interior de José Ramos
Reescrever o passado

Como é suave este vento tardio de inverno…

Um pouco gelado, sim!

Confesso que já tinha saudades…

Saudades de escrever sentado na rocha fria

E sentir a brisa gélida conservar o meu corpo.


E olhar a montanha pintada de branco…

E o branco faz lembrar aqueles tempos de criança

Em que bonecos de neve eram concebidos pelas minhas mãos!

As mãos tenras de uma criança em aprendizagem…


Tempos de outrora que resistem à passagem do tempo

E em recordações surgem, de vez em quando!

E este sentimento nostálgico apressa-se a desaparecer

Quando a ponta da caneta toca o papel,

Na ânsia de tentar reescrever a história.


Voltar atrás no tempo…

Modelar a neve tal como um escultor,

Não esquecer cada pormenor!

E no fim, estando o boneco feito, ver o sol

Lentamente levar tão árduo esforço!


E assim foi ano a ano…

Até que desisti!

Deixei a “obra de arte” derreter de vez

E nunca mais me atrevi a dar-lhe vida!

Um dia talvez… voltará a ganhá-la!


Foto: Neve de Nelson Medeiros

Perdido!

Estou ausente!
Perdido nas inconsistências da minha alma...
Escondido dos sítios mais recônditos do meu ser.
Completamente inacessível a quem quer que seja!

Vagueio pelas minhas memorias,
Deambulei como um perdido, em mim..e
Desconheço o meu estado actual,
Esqueci quem poderei vir a ser...

Esqueci o meu potencial.
Resignei a ideia de poder vir a triunfar.
Conformei-me com a perda de mim mesmo,
E com toda a tristeza que isso acarreta.

Apostei em mim tudo o que tinha…
Errei! Errei! Errei!
Perdi… perdi dolorosamente!
Perdi e perdi-me com a minha derrota!

Mas voltei mais forte que nunca!
Reavivado… com todas as forças repostas,
O sol brilhou ao meu retorno,
A lua escondeu a saudade de mim!

E tu lá estavas à minha espera,
Cabelos doirados ao vento,
Na esperança de um melhor futuro,
Onde o sonho facilmente se torna realidade!

Foto: Perdido... de Jorge Coelho

Porque te "vês" neste poema é para ti que o dedico! Um beijo Tânia.
Estão cansados... os meus olhos!

Os meus olhos estão cansados desta irreal realidade!

Cansados de ver os podres de uma sociedade que jaz…

Já doem de tanta pobreza verem,

De tanta tristeza, tanta falta de nobreza…


Valores que se desvanecem…

Supridos por ideologias destrutivas.

A simples ideia de o homem matar o seu semelhante

Cria em mim um desejo de auto-destruição!


Não quero ser um deles…

Um desses que têm ideais desumanos!

Esses que são capazes de pisar e humilhar o semelhante

Para serem vistos como reis numa terra de ninguém…


Os meus olhos não aguentam muito mais…

Já viram muita desgraça, destruição…

Fome, tristeza, opressão…

Estão cansados, os meus olhos….


Vou cerrar os olhos e esperar…

Esperar que o dia de amanha não seja pior!

Porque pedir melhor é pedir o paraíso!

E os meus olhos ainda não querem cerrar para sempre…


Foto: Aos olhos do observador de Flavia Roberta Picorelli Ribeiro